Africana mantida em trabalho análogo à escravidão em SC chegou ao Brasil através de agência de Dubai
22/05/2026
(Foto: Reprodução) Mulher é resgatada de trabalho análogo à escravidão após fugir de casa em SC
A mulher da Etiópia de 34 anos resgatada de condições análogas à escravidão após fugir de um condomínio fechado de Florianópolis, veio ao Brasil por intermédio de uma agência de Dubai, nos Emirados Árabes, com a promessa de salário e jornada de trabalho regular, disse a auditora-fiscal do Trabalho Maria Neuzeli Arantes de Oliveira, à NSC TV.
Ao chegar ao país, porém, passou a ser vítima de violências físicas e verbais, e relatou isolamento social: teve os documentos retidos pelos patrões, enfrentou barreiras linguísticas e passou a ficar à disposição da família do casal Fabricio Saltini e Nour Salem, 24 horas por dia.
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A Polícia Federal informou que investiga o caso e que está em contato com os auditores do Ministério do Trabalho.
Em nota, a empresa dos Emirados Árabes citada informou que oferece serviços de contratação de empregadas domésticas "apenas para famílias residentes em Dubai, Abu Dhabi e outros Emirados", sem facilitar contratações internacionais para o Brasil ou outros países.
Fuga
A vítima fugiu da residência na noite de 8 de maio levando apenas as roupas do corpo e um celular, sem ter qualquer acesso ao próprio passaporte - seu único documento de identificação no país.
Após passar horas perambulando pelas ruas, ela conseguiu pedir ajuda de pessoas que encontrava pelo caminho utilizando ferramentas de tradução no celular.
"Ela não tinha a menor noção dos direitos que ela tinha aqui no Brasil. Havia uma barreira da língua, porque ela fala em amárico [língua da Etiópia] e um pouquinho só em inglês. E veio por intermédio de uma agência de fornecimento de trabalhadores em Dubai. Ela saiu da Etiópia, foi até Dubai, e chegou ao Brasil por intermédio dessa empresa".
"A única coisa que essa trabalhadora queria era ter o passaporte dela. Os documentos dela que estavam retidos desde a vinda dela de Dubai", comentou.
De acordo com a auditora, a mulher começou a trabalhar para os empregadores em 20 de dezembro, ainda em Dubai, onde o casal - um homem brasileiro e uma mulher árabe - também tem casa.
"Eles deram entrada em janeiro no passaporte e, no final de fevereiro, ela veio com eles pro Brasil. E eles estão considerando que ela trabalha para eles só a partir do dia 13 de março, numa tentativa de descaracterizar o tráfico de pessoas, e eles não estão pagando para ela todo o valor que eles devem", afirmou.
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Indícios de outras vítimas
A auditora-fiscal acredita que a agência responsável que intermediou a vinda da mulher pode ter feito outras vítimas. Os trabalhadores vêm ao Brasil como se fossem turistas e ficam na invisibilidade, "escravizados pelo tempo que os empregadores quiserem".
"Temos indícios de que essa agência promove a entrada de diversos estrangeiros nessa situação irregular, de imigração irregular. E não parece que essa trabalhadora seja a única", comentou.
Mulher é resgatada de trabalho análogo à escravidão após fugir de casa em Florianópolis
SIT/Divulgação
Acordo firmado
O Ministério Público do Trabalho firmou, na quinta-feira (21), um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) com o casal.
Pelo acordo, que não impede que o casal responda criminalmente, o vínculo empregatício é reconhecido no período de 13 de março a 8 de maio de 2026 e o objetivo é a adequação às leis trabalhistas. O termo prevê ainda:
registro formal do contrato;
recolhimento dos encargos sociais;
cumprimento das normas relativas à jornada, descanso, pagamento de salários, férias, FGTS e demais direitos trabalhistas.
As verbas previstas no acordo incluem:
R$ 10 mil de indenização por dano moral individual à trabalhadora;
R$ 5 mil para custeio integral do retorno ao local de origem — valor estimado para cobrir despesas de deslocamento, incluindo passagem aérea, transporte, alimentação, hospedagem e demais custos necessários;
R$ 500 adicionais para despesas da viagem.
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